Novo Woody Allen pouco acrescenta à filmografia
Woody Allen já dirigiu mais de 40 filmes, desde o primeiro, em 1966. E, a partir de 1982, com “Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão”, vem até hoje lançando um filme por ano, sem qualquer interrupção, contando até com mais de um filme em alguns anos. Ser prolífico é bom, mas sempre tem o outro lado da questão: assim como os acertos podem ser mais numerosos, também os erros. “Tudo Pode Dar Certo” não é um erro e nem um acerto: dá a impressão de que seja um filme feito só para constar que Woody Allen continua trabalhando sem parar, mantendo-se fiel às suas origens.
Mais uma vez, o diretor não participa como ator. Mas, dá para perceber que a “persona” cultivada por Allen há décadas é transposta para Larry David, o protagonista de “Tudo Pode Dar Certo”. Ele é o co-criador da famosa série de tevê “Seinfeld”, e ultimamente anda acertando bastante com a série “Curb Your Enthusiasm”/”Segura a Onda”, onde é o ator principal. Só que o Larry de “Curb” é totalmente diferente deste de “Tudo Pode Dar Certo”, onde até seu nome é outro: Boris Grushen, digo, Boris Yellnikoff. Ele tem uma visão muito particular da vida e do mundo, que muitos chamariam de pessimista ou até fatalista, além de ser hipocondríaco, sofrer de pânicos noturnos e outros problemas. A vida dele muda quando abriga em seu apartamento a jovem Melodie Celestine (Evan Rachel Wood), que fugiu de casa. A história foi escrita por Allen nos anos 70, e isso fica gritante de claro ao percebermos certos maneirismos da história, que lembram os filmes dele daquela época.
Não se engane, “Tudo Pode Dar Certo” não é mais uma das besteiras que Woody Allen andou fazendo na última década, como “Scoop” ou “O Escorpião de Jade”. É um filme coeso, que apresenta uma tese sobre o acaso da vida e a prova, utilizando seus próprios personagens. A partir do encontro de Boris e Melodie, toda uma reação em cadeia é criada, chegando até a atingir os pais da menina (Patricia Clarkson em bom momento e Ed Begley Jr. também) e as pessoas com quem eles se envolvem. Evan Rachel Wood está aqui com um sotaque sulista estranho a princípio, mas com o qual o público se acostuma. Difícil será para quem acompanha “Curb Your Enthusiasm” ver Larry David como outro personagem além dele próprio.
Assista a “Tudo Pode Dar Certo”, mas sem esperar outro “Vicky Cristina Barcelona” ou “Match Point”. Este só pode ser considerado um dos bons filmes de Allen da década porque esta não foi lá muito prolífica – na qualidade, e não na quantidade.
Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works, 2009), 92 min.
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Com: Larry David, Evan Rachel Wood, Patricia Clarkson, Carolyn McCormick, Yolanda Ross, Michael McKean, Nicole Patrick, Lyle Kanouse, Adam Brooks, Ed Begley Jr.

Gostei muito desse filme. Confesso que não esperava muito ao assisti-lo (mesmo sendo uma grande fã de Woody Allen), mas a maioria dos diálogos desse filme, ainda que causem um certo dèjá-vu, são sensacionais.
Não sei se dá pra reclamar que o filme não “acrescente” algo à filmografia, ou que seja um filme só para constar. Tudo isso só se se acreditar que o diretor deva ter uma obsessão por excelência, colocar seus objetivos o mais alto possível (como o Cameron diz que faz). Quero dizer, só se se pensar que o Woody Allen queria ou tem que se superar, é que esse filme é um erro ou um acerto. A minha impressão desde o início dele é que, na verdade, ele é um filme sem pretensões. Prova disso é o espaço para o clichê, para algumas resoluções curiosas, mas não engenhosíssimas para a trama, entre outras coisas. Penso que o Allen quis fazer um filme tocante, divertido e inteligente. E fez. Tudo somado, não sei como isso não pode ser um acerto também.