Curta Santos: o show vai continuar, diz diretor
Conforme dita a imortal frase do mundo artístico, “o show deve continuar”. O show em questão é o Curta Santos, tradicional festival de curtas-metragens de Santos que terá sua oitava edição em 2010. Após a morte do seu criador e diretor durante todos estes anos, Toninho Dantas, o festival toma para si a responsabilidade de manter a tocha acesa e, ao mesmo tempo, homenagear seu querido mestre.
Em entrevista ao Cinecartógrafo, o diretor de produção do Curta Santos desde sua primeira edição, Junior Brassalotti, contou como será o festival deste ano, os planos para manter vivas as ideias de Toninho e deixou claro que a equipe não desanimou. Pelo contrário: reuniu bastante garra para deixar seu mestre orgulhoso.
Como ficou arranjada a equipe após a passagem do Toninho? Você assumiu o comando?
Não sinto que irei assumir nada, nem ninguém na equipe tem essa expectativa em relação tanto a mim quanto ao Ricardo (Vasconcelos, diretor desta edição). O trabalho dentro do festival sempre fluiu de uma maneira muito gostosa, com hierarquias e setores definidos, mas o poder de decisão era coletivo sobre várias coisas, e Toninho sempre procurou trocar muito antes de fechar qualquer coisa, e continuaremos assim. É prazeroso e divertido estar no Curta Santos. Tínhamos um mote que era: agonia e êxtase!
Estamos trabalhando numa grande surpresa na abertura para o Toninho, mas essa eu não conto, pois ele pode ouvir.
Quais novidades você pode adiantar para a esta 8ª edição do Curta Santos?
Teremos algumas homenagens que já são de praxe e fazem parte do corpo do festival a personalidades do cinema nacional, mas, obviamente, vamos dar uma mexida, principalmente no tema, e vamos reestruturar algumas coisas em relação aos debates e comunicação público realizador. Queremos aproximar mais a plateia do cara que passou um tempão filmando e está ali na tela com seu curta. Queremos propor um ambiente de discussão e reflexão prazerosa para ambos. E estamos trabalhando numa grande surpresa na abertura para o Toninho, mas essa eu não conto, pois ele pode ouvir.
Como serão as homenagens planejadas para o Toninho?
O festival será dedicado a ele, claro, de diversas maneiras, mas vamos trabalhar nisso de uma maneira mais ampla que a homenagem pela homenagem. A partir disso, queremos refletir sobre o presente momento que vivemos. Acho que Santos vai perceber aos poucos o quanto uma figura como ele faz falta, pois estamos andando faz tempo na contramão da história da própria cidade, que sempre foi de vanguarda. E o Toninho sempre direcionava nosso olhar pro real e pro futuro e buscava atiçar os coletivos, sejam eles de audiovisual, teatro etc., pra não se conformarem com o “status quo”, a esse pensamento monolítico e antigo que impera até nos próprios artistas, às vezes. Lutar, não uma luta vazia, mas com conteúdo e razão de ser, agir em prol de algo maior que, na maioria das vezes, nós mesmos não veremos o resultado: é pra as gerações futuras. Mas fica a semente da inquietação, como todos os anjos anarquistas que Deus pôs na terra pra nos provocar. Salve Plínio (Marcos), Pagu, Maurice (Legeard), Toninho e tantos loucos, mais sãos que os sãos. Vamos retomar algumas ideias do Toninho de alguns anos atrás e temos uma surpresa que espero que deixe o Toninho orgulhoso, pois será algo feito pro coração dele, um presente que anos atrás num momento especial da cidade ele iniciou e poucos sabem, que vamos trazer a tona de uma forma bacante, mas não vou dar detalhes. Só na abertura do festival mesmo, que será, esperamos, uma festa! Geleializar geral! Evoé! Levanta sua espada, São Jorge, e vem conosco que o Dragão tá maior!
Evoé! Levanta sua espada, São Jorge, e vem
conosco que o Dragão tá maior!
Que legado Toninho Dantas deixa para a cidade e para a cultura como um todo?
Fica a responsabilidade de não fazer um trabalho conformista, babaca, vazio, sem conceito, inerte, e sim olhar pro futuro e quixotescamente lutar e buscar o melhor sempre. Ele sempre primou pela qualidade, respeito e realização seja da maneira que for, doa a quem doer, de uma maneira séria, engajada, apartidária e comprometida com a ação e fazer cultural. Seguiremos na lição dele que era a nossa também. Combinávamos muito em opiniões, por isso era tão gostoso o trabalho dessa equipe. Estamos com o mesmo sentimento, só que falando mais baixinho.
Antes, o tema do festival era o cinema feminino. Esta ideia foi descartada ou continuará dentro do festival?
Estávamos já há um bom tempo, desde o começo do ano passado, pensando na questão do feminino no cinema. Tínhamos mostras e contatos nesse sentido, mas a passagem do Toninho nos obrigou a repensar o formato do festival e o tema também.
De que forma?
Não faremos nada saudosista e tentaremos ampliar a questão da homenagem ao Toninho a algo maior, alinhavando com o seu pensamento e filosofia de vida, que foi a obra de arte maior do nosso diretor, e discutir a função do pensamento lúcido – ou não – sobre o presente, questões sobre estar à margem da sociedade e como ser marginalizado, e muitas vezes até por seus iguais, lhe dá uma clareza e solidez de pensamento e reflexão que gera uma solidão enorme enquanto ser humano ao mesmo tempo em que se desenvolve um grande senso de humor sobre si, quem sabe gerando daí uma profunda empatia pelo homem que nos impulsiona a criar, de uma forma angustiante, mas tão necessária quanto respirar.
Houve algum momento em que a continuidade do festival ficou comprometida com a passagem do Toninho?
Jamais! Ele nos xingaria de fracos… Ou coisa pior…. Claro que passou o pensamento pela nossa cabeça, mas a cidade já espera o festival, temos compromisso e responsabilidade com uma garotada cheia de gás que está produzindo cada vez mais e melhor, um polo audiovisual é cada vez mais uma realidade aqui. Com iniciativas como a Santos Film Commission, Oficinas Querô, cursos na Unimonte etc., a partir do festival, sentimos que a expressão artística através do olhar da câmera cresceu cada vez mais. Estamos aí pra incentivar e sermos uma janela informal de exibição e durante uma vez o ano tentar oferecer ao público fiel do festival o que de melhor está sendo produzido aqui e brasis afora. Temos parceiros como o Sistema A Tribuna, Cine Roxy, o Governo do Estado de São Paulo e a Prefeitura de Santos que acreditam e cada vez mais investem no festival. Devemos a eles e ao povo santista e aos realizadores um evento cada vez maior e melhor. E vamos continuar cumprindo nossa missão, com toda a alegria, jovialidade, inquietude que aprendemos com o Toninho e sempre reciclando e somando experiências. Queremos crescer cada vez mais e levar o nome da cidade pra fora, e mostrar que além de porto, praia e futebol, Santos entende e respira cinema.
O que fica da forma com que o Toninho dirigia o festival?
Caos, insegurança, ansiedade, alto astral, reflexão profunda sobre qualquer decisão tomada, planejar o festival em si como uma obra fechada de arte, com começo meio e fim. Ele era inflexível quando tinha certeza do que queria, mas sempre estava disposto a discutir. E se alguma ideia contrária à dele o convencesse, ele era o primeiro a defendê-la, anarquista, amoroso sempre, endemoniado quando estava bem. Uma criança com um brinquedo novo, um “enfant terrible”.
Senhoras e senhores, apertem os cintos, que
teremos um festival e tanto!
Faço agora a mesma pergunta que fiz ao Toninho quando conversamos, há alguns meses, sobre o festival. Qual a expectativa para esta edição?
Pipoqueiros felizes, salas cheias, filas na porta do Roxy, público sorrindo, vaiando, urrando, torcendo, realizadores apurando o olhar e trocando experiências com os jurados que vamos trazer, tentar tirar um pouco e cada vez mais esse ar sisudo e careta que os eventos na cidade têm tido, refletir o papel do poder público na realização e apoio á iniciativas artísticas independentes, abrir o olho da iniciativa privada que investir em arte dá retorno, lutar pelo Fundo de Cultura de Santos, assegurar o direito de exibição ao audiovisual nacional, servir de plataforma aos talentos locais que têm surgido desde a primeira edição do festival, servir de espaço para reciclagem dessa garotada maravilhosa, atores, realizadores, músicos, estudantes, jornalistas, que têm no curta santos um espaço para troca, prazer e aprendizado. E, acima de tudo curtir, que a vida é curta! Senhoras e senhores, apertem os cintos, que teremos um festival e tanto!
A 8ª edição do Curta Santos irá de 14 a 18 de setembro. As inscrições para curtas estão abertas e podem ser feitas no site oficial do festival até 25 de julho. O Curta Santos também está no Twitter, no perfil @curtasantos.

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