Por Ricardo Prado

Glenn Berggoetz tem a menor bilheteria da história

Glenn Berggoetz tem a menor bilheteria da história

Em agosto deste ano, uma notável marca no âmbito dos recordes de bilheteria foi ultrapassada. Diferente do que “Avatar” fez em 2010, porém, o propositalmente chamado “O Pior Filme de Todos os Tempos” (tradução livre de “The Worst Movie EVER!”) estreou e arrecadou em sua primeira semana a impressionante marca de US$ 11, o preço de um ingresso. Uma pessoa assistiu ao filme em sua estreia, registrando o recorde de pior bilheteria da história, de acordo com registros.

Construído como uma paródia de filmes B de várias épocas, “O Pior Filme de Todos os Tempos” não leva a si mesmo à sério. E o diretor, Glenn Berggoetz, também é assim: para ele, a marca não gerou vergonha, mas sim holofotes. Segundo ele, o filme explodiu em popularidade depois que saíram notícias da marca tão baixa. Todos queriam conferir o tal dono da pior bilheteria de todos os tempos.

Em entrevista exclusiva ao Cinecartógrafo, e pela primeira vez ao Brasil, o diretor Glenn Berggoetz conta como foi a produção do filme, aponta as referências aos filmes B do passado e, claro, discute a marca história que poucos diretores almejam.

 

A sinopse do filme parece reunir tantos elementos que a cabeça chega a girar. Afinal, sobre o que é “O Pior Filme de Todos os Tempos”?
Realmente, é um pouco difícil resumir a história. Boltar, um robô alienígena, é enviado à Terra para destruir tudo. Ele decide causar destruição em uma vizinhança específica. Lá, vivem dois adolescentes raivosos, interpretados por atores bem mais velhos, aliás. Também compõem o elenco uma adolescente grávida, cientistas malucos e uma ladra de almas. Sim, o enredo é uma completa bagunça, mas isso é proposital. Pode ser o pior filme que você já viu, mas com certeza é a melhor mistura de ficção científica, ação, drama, terror e musical que você já viu.

Então o objetivo era fazer uma comédia que faz homenagem aos filmes B? Ou algo assim?
Nós tivemos um orçamento de US$ 1070, então, sabíamos que não estávamos fazendo um novo “O Poderoso Chefão” ou “…E o Vento Levou”. O objetivo era fazer as pessoas rirem. Existem tantas dificuldades na vida das pessoas, má notícia atrás de má notícia nos noticiários, que é ótimo poder parar, sentar, e dar umas boas risadas assistindo a um filme sem se preocupar com nada.

Tem alguma comédia que te inspira em especial?
Sempre que faço um filme de comédia, tenho em mente o quão impecável é “Corra que a Polícia Vem Aí”, com Leslie Nielsen. É o filme mais engraçado que já vi, e desejo, algum dia, fazer algo tão bom. Além disso, com “O Pior Filme de Todos os Tempos”, resgatei vários filmes péssimos que assisti em minha vida e reuni os piores aspectos deles.

Por exemplo?
A dupla de adolescentes raivosos, por exemplo, é inspirada naqueles filmes toscos dos anos 50 que retratavam adolescentes como criaturas nervosas demais, sempre bravas com todo mundo. Tem o jovem casal, também, que é baseado no melodrama das telenovelas. O filme tem vários momentos, personagens e nuances que remetem ao que há de pior no cinema, tendo em vista os filmes B.

Por que o filme só foi exibido em um cinema? Foi muito difícil vendê-lo para os exibidores?
Quando comecei a procurar por um lugar para “O Pior Filme de Todos os Tempos”, logo consegui marcar sessões em um cinema do estado da Virgínia. Eles nos colocariam na programação por cinco semanas. Algum tempo depois, recebi um retorno de outro cinema o Sunset 5 de Los Angeles, dizendo que queriam exibir o filme, mas logo na semana que estava para começar. A princípio fiquei bastante feliz por conseguir sessões em um cinema de Los Angeles, mas eu estava viajando naquele momento e não conseguiria fazer a propaganda necessária para levar bastante gente para o cinema assistir ao filme. Apelei para as redes sociais, resgatando alguns contatos de Los Angeles para me ajudar, já que sou de Denver. De qualquer forma, eu pensava que em uma cidade como Los Angeles não haveria como existir sessões com salas vazias.

E existem?
Eu estava errado. No fim, alguns dos meus contatos de Los Angeles tinham compromissos já agendados e, para piorar, o cinema nem colocou o nome do filme em seu letreiro externo. O resultado: ninguém foi à estreia, na sexta-feira, e somente uma pessoa assistiu ao filme no sábado seguinte, o que gerou a receita de um ingresso, ou seja, US$ 11.

Essa marca te surpreendeu? Ou foi o recorde em si?
Para falar a verdade, é tudo muito engraçado. A princípio, fiquei arrasado. Cogitei não contar para ninguém. Mas, logo lembrei que havia prometido ao Ray Subers, do Box Office Mojo, que iria passar para ele os números da bilheteria assim que os tivesse, então os enviei. No dia seguinte, fiquei espantado ao descobrir que havia registrado um recorde de menor bilheteria em uma estreia. Só que aí comecei a receber inúmeras visualizações no trailer do filme no YouTube e diversos pedidos de entrevista de todo o mundo. É verdade que eu preferia receber toda essa atenção após uma bilheteria de US$ 50 milhões, mas, de qualquer forma, era importante estar sendo visto.

É verdade que vocês estão procurando pela única pessoa que assistiu ao filme naquele sábado?
É verdade. Adoraríamos descobrir que foi. Já recebemos alguns contatos, mas não tinham como provar. Até pedimos ajuda ao cinema, mas os funcionários não souberam confirmar. Eu gostaria muito de conhecer essa pessoa, saber o que a levou a ver o filme e, por fim, dar-lhe vários DVDs e, quem sabe até, objetos usados nas gravações.

Como se trata de uma comédia, imagino que o clima das gravações deva ter sido bem divertido.
Sim, foi muito divertido. Gravamos quase tudo em um único fim de semana, e o elenco mergulhou de cabeça na ideia e em seus papéis. Alguns deles já trabalharam com atores de alto nível, e trouxeram uma experiência única para dentro do nosso set. Eles souberam acertar o tom do filme, que não leva a si mesmo à sério, e contribuíram para que conseguíssemos um produto diferenciado. Estávamos sempre rindo e nos divertindo muito.

Como está sendo a distribuição do filme, agora em DVD?
Ainda não temos nenhum contrato de distribuição nos Estados Unidos nem fora, mas estamos negociando. Faz pouco mais de um mês que o filme ganhou notoriedade e ainda não tivemos tempo para acertar contratos desse tipo. Temos várias empresas analisando ofertas e acabamos de conseguir nossa primeira sessão internacional do filme, em um cinema da Escócia, em novembro. Ainda queremos expandir mais, chegar ao Brasil, à Argentina, Itália, Espanha, França e vários outros países, além, claro, de uma boa distribuição aqui nos Estados Unidos.

Como surgiu seu interesse por cinema?
Comecei a escrever lá para os 20 anos, a princípio fazendo contos e até conseguindo publicar algumas coisas. Escrevi três romances, mas nenhum era particularmente bom e eles não foram publicados. No final dos anos 90, comecei a me dedicar a roteiros de cinema. O tamanho de um roteiro se encaixava no meu estilo. Eu sempre achei que contos e romances eram muito fora do meu ritmo. Ao longo dos próximos dez anos, escrevi doze roteiros, mas não consegui vender nenhum para Hollywood. Em 2006, em uma conversa com um amigo que trabalhava nos estúdios da Disney, mencionei meu dilema envolvendo os roteiros. Ele me falou para, neste começo, tentar produzir eu mesmo os filmes. Assim, conseguiria a atenção não só do público como também da Indústria. Fiz meu primeiro curta e, em seguida, meu primeiro longa. Por enquanto já fizemos quatro longas.

Já tem seus próximos projetos em mente?
Temos vários projetos engatilhados, mas a ideia é trabalhar com orçamentos em milhões e não mais em milhares como nos filmes anteriores. Tenho quinze roteiros finalizados de todos os tipos: comédias, dramas, terror e até comédias românticas. Tenho um roteiro dramático que retrata as relações raciais nos Estados Unidos dos anos 50 e tudo indica que teremos Samuel L. Jackson caso consigamos trazer dinheiro para o filme. Também tenho escrita uma comédia com zumbis caso os investidores queiram algo na mesma linha de “O Pior Filme de Todos os Tempos”.

Pretende quebrar a sua própria marca, para melhor ou pior?
Eu certamente não desejo quebrar mais recordes de pior bilheteria da história: pelo contrário, quero chegar às manchetes com algo como “Novo filme de Glenn Berggoetz no topo das bilheterias da semana”.

Para finalizar, dê um conselho para quem quer ingressar nesse meio. Só não precisa entrar na questão de como faturar nas bilheterias…
Se tem algo que aprendi fazendo cinema independente é que fazer filmes não precisa ser difícil se mantermos o processo simples e direto. Também aprendi que me rodear de gente talentosa, tanto no setor técnico quanto no elenco, me deixa mais talentoso do que eu realmente sou.

A versão de download de “O Pior Filme de Todos os Tempos” está à venda no site oficial do filme por US$ 5, disponível com áudio em inglês, sem legendas. No site também há a trilha sonora oficial do filme, esta distribuída gratuitamente, sob a justificativa de que “não é muito boa”.

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