Por Ricardo Prado

‘Piratas’ mostra gênese da Apple de Steve Jobs

‘Piratas’ mostra gênese da Apple de Steve Jobs

Em um dos primeiros keynotes de Steve Jobs, a plateia entoa um cântico composto por apenas um nome: “Steve! Steve! Steve! Steve!” Impressionado, Steve Ballmer, chefe executivo da Microsoft, vira-se para Bill Gates nos bastidores e pergunta: “Quando isso deixou de ser um negócio e virou religião?” Este momento, situado na fase final do telefilme “Piratas da Informática”, resume a importância de Steve Jobs, que morreu no último dia 5 de outubro, aos 56 anos. O filme, lançado em 1999, existe como o único registro cinematográfico não só da fundação da Apple como também da Microsoft, tendo como fio condutor a personalidade de cada um de seus criadores, Jobs e Gates.

O filme começa com a gravação do antológico comercial de tevê do computador pessoal da Apple, o Macintosh, inspirado no livro “1984″ e dirigido por Ridley Scott. Dali, pula para 1997, quando Steve Jobs anuncia Bill Gates, da Microsoft, como um parceiro em seu retorno à empresa. A história, então, se desenvolve em flashback, mostrando como surgiram as duas gigantescas empresas a partir de experimentos frustrados e muita força de vontade.

Jobs é retratado como um líder visionário mas também truculento e, em alguns momentos, louco. Noah Wyle (o médico John Carter de “E.R.”) faz um retrato memorável do cofundador da Apple, como se “Piratas da Informática” fosse o “Amadeus” de seu Mozart. Bill Gates não chega a ser um Salieri: a dinâmica entre os dois se desenvolve de tal forma que a truculência é mútua, assim como as puxadas de tapete. A sujeira é tanta que a grande frase proferida pelos dois a seus colegas é “Bons artistas copiam, grandes artistas roubam”, atribuída a Pablo Picasso.

“Piratas da Informática” faz um trabalho melhor em mostrar o lado humano de Jobs do que retratar seu lado mais conhecido. O culto de personalidade criado em torno do presidente (líder?) da Apple só recebe aquela alusão proferida por Ballmer já no final. Em vez disso, o filme retrata o desinteresse de Jobs em assumir a filha que teve com uma ex-namorada, os acessos de fúria e até loucura que tinha com os funcionários e até seu contato com LSD nos anos 70.

Para um telefilme com recursos parcos e mão quase invisível de diretor, trata-se de um filme notável. É o “A Rede Social” dos computadores pessoais, só que sem o orçamento milionário e as várias indicações a prêmios. É filme obrigatório para todos que usam computadores hoje em dia – e, graças ao que Jobs e Gates fazem neste filme, estas pessoas são muitas. Só é bom que o espectador se prepare para detestar os dois após o término do longa.

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