Por Ricardo Prado

André Ristum: um estrangeiro em seu próprio país

André Ristum: um estrangeiro em seu próprio país

Ser um cidadão do mundo, e não de um país, pode parecer interessante mas tem um efeito colateral um tanto desagradável: sentir-se um estrangeiro em seu próprio país. E essa sensação é bem pessoal para o cineasta André Ristum. Filho de brasileiros, nasceu em Londres e viveu boa parte da vida em Roma. Mas, segundo ele, sempre teve uma identificação com o Brasil, apesar de nunca ter morado aqui. Esse nó nas referências toma o banco da frente no enredo de “Meu País”, primeiro longa do diretor, que teve sua estreia no Festival de Paulínia deste ano.

O filme conta a história do reencontro de uma família desestruturada pela dor. Após anos fora do Brasil, Marcos (Rodrigo Santoro) é obrigado a retornar quando seu pai (Paulo José) sofre um derrame. Além de Santoro e Paulo José, Débora Falabella também está no elenco.

Em entrevista ao Cinecartógrafo, Ristum contou não só como fez para inserir suas experiências pessoais no filme como também como conseguiu reunir estrelas como Rodrigo Santoro e Cauã Reymond em seu primeiro longa.

O quanto de experiências pessoais tem na história de Meu País?
Eu cresci no exterior, mas sempre tive uma ligação muito forte com o Brasil, que pra mim sempre representou minha familia, minhas raízes, já que meus pais são brasileiros. De certa forma, quando criança, sempre me senti estrangeiro em meu país, seja aqui ou na Italia. Daí surgiu a idéia de contar a história de um personagem que voltasse para o Brasil e tivesse que lidar com este sentimento e com a necessidade de re-encontrar suas raízes.

O processo de produção do filme começou em 2009. Que alterações sofreu até a sua finalização?
Ao longo de um processo de produção muitas coisas mudam, evoluem. Reduzimos muito a apresentação inicial dos personagens e o prólogo da historia, fazendo com que a personagem da Débora entrasse antes no filme. Também conseguimos imprimir uma maior delicadeza ao filme através do trabalho com a trilha e o som, chegando assim no equilíbrio que sempre buscamos.

Como foi conseguir reunir um elenco cheio de estrelas para sua estreia em longas?
Desde o roteiro sempre achei que seriam necessários atores muito talentosos para compor estes personagens. Pensei em alguns nomes e as primeiras opções eram exatamente os atores que acabaram fazendo estes personagens. Além de serem extremamente talentosos e competentes tinham o perfil adequado para os personagens. Tive muita sorte pois todos leram o roteiro e se encantaram com a história que queria contar, vieram juntos e abraçaram essa viagem emocional. Foi pra mim um momento muito feliz.

O que te fez querer fazer filmes?
O cinema está em minha vida desde a infância. Meu pai e meu padrasto trabalhavam com cinema e desde pequeno eu visitava os sets onde eles trabalhavam. Aos 3 anos, quis fazer um filme, em Super 8, aonde mostrava cenas do meu cotidiano. Crescendo, acabei direcionando para outra formação, mas, no final dos anos 80, depois de assistir a “O Último Imperador”, do Bernardo Bertolucci, fiquei absolutamente encantado com o cinema e com a possibilidade de recriar a vida através de um filme.

Quais cineasta são referência para você em seu trabalho?
Bertolucci sem dúvida é minha primeira referência, principalmente no que diz respeito a um apuro estético da imagem. Ao longo da minha carreira são tantos os cineastas que me encantaram, mas que não necessariamente acabaram influenciando minha maneira de fazer cinema. Entre tantos, gosto muito do trabalho de Walter Salles, de Inarritu, Sofia Coppola, Nanni Moretti, Paolo Sorrentino, Marco Bechis…

O que o futuro lhe reserva? Quais projetos estão encaminhados e o público pode aguardar?
Estou desenvolvendo dois projetos ao mesmo tempo para em breve decidir qual fazer antes. O primeiro é um suspense baseado num argumento escrito por Ottavio Jemma, roteirista italiano autor de mais de 50 filmes, e adaptado por mim. O segundo é um drama que foca o relacionamento de uma mãe solteira com seu filho.

Qual conselho você dá a algum aspirante a cineasta que quer embarcar no mundo dos longas?
Acho que a formação do olhar é tudo. Fundamental é ver muitos filmes, dos mais variados gêneros, para inclusive entender o que mais lhe interessa entre tantas opções e possibilidades. E principalmente se preparar a ter muita paciência, pois demora muito tempo para conseguir realizar um filme, e so consegue quem tem muita garra, vontade e acima de tudo paciência para esperar.

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