Sangue: a fobia do diretor de ‘Filmefobia’
“Filmefobia”, do diretor brasileiro Kiko Goifman, é descrito como um documentário fictício sobre o medo. As fobias da sociedade são as protagonistas do longa-metragem, que fica entre transita entre gêneros mas tem uma parada definitiva na experimentação.
O diretor Kiko Goifman, natural de Belo Horizonte, já dirigiu filmes como “33″, documentário de 2002 que mostra a busca de Goifman por sua mãe biológica; “Morte Densa”, documentário de 2003 que retrata várias pessoas que já cometeram assassinato, e outros. Em entrevista ao editor do Cinecartógrafo, ele explicou qual é o objetivo do projeto e como foi o processo de produção de um trabalho tão diferente.
Defina o “Filmefobia” em uma só palavra.
Experiência.
De onde surgiu a idéia do “Filmefobia”?
Tenho fobia de sangue. Isso foi bastante difícil na minha infância e adolescência. Eu desmaiava bastante por causa de pequenos cortes, mesmo em aulas sobre aparelho circulatório. Era motivo de brincadeiras, meus colegas sacaneavam muito. Isso me marcou bastante. O objetivo do filme é, entre outros, tocar em um tema tabu. As pessoas escondem as suas fobias, existe uma certa vergonha nisso. “Filmefobia” mostra, também, aos fóbicos, que eles não estão sozinhos, que podem partilhar a sua dor.
O “Filmefobia” representa uma mudança muito radical do seu jeito de fazer cinema?
Sim e não. Ele se afasta por não ser um documentário, já que para mim é um filme de ficção com uma atmosfera documental. Por outro lado, meus filmes tratam de temas polêmicos e tabus. Em “33″ (2002), por exemplo, trato da tabu da adoção. E em “Morte Densa” (2003), trato de assassinos. Existe uma relação temática com “Filmefobia”. Por outro lado, trabalhei com uma equipe maior do que estou acostumado e confesso que isso não é muito confortável para mim.
Como você classifica o filme? Chega a ser experimental?
Classifico como um filme de ficção que possui alguns elementos de documentário. Trabalhei com alguns fóbicos reais, com atores e com atores que possuem fobias. Quando estou participando de festivais mais radicais, não sinto que o “Filmefobia” chegue a ser experimental. Muitos filmes com uma linguagem bem mais radical andam sendo produzidos pelo mundo. Às vezes brinco que “Filmefobia” chega a ser convencional, mas isso não é verdade. É um filme que trafega entre gêneros, possui alguns poucos elementos de terror, mas também bastante humor.
Você acredita que o cinema brasileiro precisa de mais experimentação?
Acho que sim. Não temos um público fechado de cinema, e acho que a criatividade nunca pode ser vista como um obstáculo à bilheteria. Experimentação, entendida no melhor sentido do termo, pode ser sempre saudável.
“Filmefobia” já ganhou diversos prêmios. Entre eles, Melhor Filme e Prêmio da Crítica no Festival de Brasília. Você esperava que o filme fosse tão bem recebido?
Foi uma supresa, pois júris de festivais são sempre uma incógnita. Mas estamos bem felizes com a resposta dos festivais. Já participamos de muitos festivais no exterior, como Locarno, Rotterdam, Cuba, Bafici, Toulouse, entre vários outros, e a receptividade vem sendo ótima.
O que você espera que o público sinta quando estiver assistindo ao filme?
Espero que o público se sinta instigado. Algumas pessoas estão com medo de ver “Filmefobia”, pois acreditam que seja um filme de terror. Mas não é. Não existem hiper closes, não existem subjetivas, recursos muito utilizados no terror. O filme não foi feito para assustar ninguém.
O cineasta José Mojica Marins, criador e intérprete do personagem Zé do Caixão, está no elenco de “Filmefobia”. Os filmes dele são uma inspiração?
Zé do Caixão entra no filme em um momento no qual o personagem principal está se aconselhando a respeito das imagens que produz. Gosto do filmes do Mojica, mas não existe uma inspiração direta. Como influência, destaco o documentário “O Homem Urso” do Herzog. Assistindo aos dois, talvez as conexões não sejam imediatas, mas, na minha cabeça, estão, com toda certeza.
Quais são seus planos para o futuro?
Vou continuar fazendo documentários, isso me atrai muito. Talvez tenha alguma relação com o meu passado de antropólogo. Ficção me atrai também, mas estou vendo com calma o que vale a pena ser filmado. O mundo está cheio de histórias e eu gostaria de escolher uma que merecesse ser contada.

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